A derradeira obra do compositor brasileiro Eduardo Guimarães Álvares (Sala São Paulo -12,13, e 14 dez 2013)

A derradeira obra do compositor brasileiro Eduardo Guimarães Álvares

Derradeira obra do compositor mineiro Eduardo Guimarães Álvares, A Lua do Meio-Dia representa uma síntese depurada de sua linguagem musical, ápice de seu último período criativo, que se estende de 2008 até 2013. O compositor desenvolveu um vocabulário original de grande rigor e pluralidade técnica, sem no entanto ater-se à preocupação de homogeneidade que permeia a obra de compositores como Schoenberg ou Boulez. As influências são múltiplas: Claude Debussy, Igor Stravinsky, Edgar Varèse, György Ligeti, Luciano Berio e, sobretudo, Mauricio Kagel. Como um radar sismográfico de seu tempo, Eduardo reflete vários aspectos da música contemporânea.
Há sim uma herança que podemos chamar de pós-serial, identificável nas harmonias dissonantes, nas oitavações e na amplitude das tessituras. Eduardo reintroduz procedimentos neotonais e neomodais associados a novas texturas, elementos submetidos a um intenso tratamento polimétrico. As melodias são angulosas e cheias de aspereza, sem nenhum resquício pós-romântico. Surgem, assim, dimensões expressivas atrevidamente heterogêneas.
A “lua do meio-dia” é um fenômeno que acontece com frequência nos céus tropicais: a lua resplandece intensamente, contrapondo-se ao sol em brilho e pujança. A partir dessa ideia, Eduardo constrói sua dialética musical em um concerto para tímpanos e conjunto de percussão, homenageando a instrumentista Elizabeth del Grande, por quem tinha a mais profunda admiração.
Com grupos instrumentais dispostos antifonicamente no grande palco da Sala São Paulo, estão em constante oposição concertante timbres opacos de tambores e madeiras (representando a Lua) e timbres brilhantes de metais, pianos e celestas (representando o Sol). Dispostos em meia- -lua, com os tímpanos no centro, a trama camerística traduz o intenso duelo de luz entre o Sol e a Lua. A peça se encerra de maneira explosiva, em um turbulento amálgama sonoro.
De grande complexidade rítmica, a rigorosa construção frequencial (tanto na horizontalidade das alturas quanto na verticalidade dos caminhos harmônicos) revela um compositor no apogeu de seus recursos estilísticos: economia de meios, blocos de sons dispersos na textura orquestral e formações melódicas atonais de grande amplitude que se coagulam em clusters, como amebas sonoras.
A partir das intervenções do tímpano, derivam- se ideias que serão desenvolvidas durante a peça. Macro e microestruturas revelam-se em perfeita harmonia de planejamento matemático. A grande oscilação da densidade orquestral evidencia o caráter teatral e dramático do som. A Lua do Meio-Dia revela um compositor e sua poética musical de grande liberdade expressiva, intensamente pessoal.
Paulo Guimarães Álvares é pianista e professor da Hochschule für Musik und Tanz Köln e da Escola Superior de Artes Aplicadas de Castelo Branco (Esart). A Revista Osesp homenageia o compositor mineiro, falecido precocemente em março deste ano.

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Sobre danieldolivier

musician, composer, saxofonist, guitarrist, teacher of Musyoga (www.musyoga.com.br) producer, ambientalist, writer.
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Uma resposta para A derradeira obra do compositor brasileiro Eduardo Guimarães Álvares (Sala São Paulo -12,13, e 14 dez 2013)

  1. Republicou isso em danieldoliviere comentado:

    As grandes bandeiras serão sempre aquelas que atravessarão séculos e milênios. A música dos mantras nos chegam mesmo sem que na época não existisse tecnologia para gravar a não ser nas mentes e DNAs. A música de Eduardo Guimarães Álvares atravessará então os milênios também.

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